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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Lockdown pode terminar em 'tiro e morte', diz prefeito de Manaus

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), foi às lágrimas mais uma vez ao descrever a situação dramática enfrentada pela maior cidade da Amazônia em meio à pandemia do novo coronavírus.

"Todo dia eu vejo mortes de pessoas que conheço", diz o tucano em entrevista à BBC News Brasil. "Isso só não mexe com uma pessoa com o coração muito ruim: impotência, falta de recursos, e morrendo gente, morrendo gente."



Ele prossegue, citando o episódio em que o filho de um homem que morreu pelo coronavírus na capital amazonense atacou um dos profissionais responsáveis pelo enterro.

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"O coveiro! O coveiro. Se tivesse que espancar, espancasse o governador, espancasse a mim. Mas o coveiro..."

Segundo ele, o número de mortes na cidade passou da média histórica de 20 a 30 enterros por dia para um pico de 140. "Agora estamos estabilizados em uma média de 120, o que é muito."

O prefeito, no entanto, resiste à recomendação do Ministério Público do Estado de implementação de um lockdown (confinamento obrigatório), citando risco de caos social em Manaus.


"(Alguém) joga uma pedra em alguém, começa um tiroteio com bala de borracha que pode cegar alguém, começa a reação das pessoas, que vivem uma situação de desespero. Algo que termina dando em tiro, dando em morte", avalia.

Na última década, as regiões Norte e Nordeste se revezaram no topo entre as áreas mais violentas do Brasil. Segundo o Atlas da Violência do ano passado, feito com dados de 2017, Manaus era a nona capital entre as líderes em taxas de homicídios no país - no topo estava Fortaleza (CE), seguida de Rio Branco, Belém, Natal (RN), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE) e Aracaju (SE).

Por outro lado, cientistas em todo o mundo apontam o lockdown como medida eficaz e necessária para a contenção da doença. Nesta semana, em meio ao processo de reabertura parcial em países como Alemanha e Espanha, a epidemiologista da Organização Mundial da Saúde Maria Van Kerkhove alertou para os riscos associados ao relaxamento. "Se as medidas de lockdown forem levantadas abruptamente, o vírus pode decolar."

A entrevista acontece dias depois de Arthur Virgílio enviar vídeos pedindo ajuda a personalidades internacionais - do presidente francês Emmanuel Macron ("se ele tem toda essa preocupação com a Amazônia, deveria ajudar") à ativista Greta Thunberg ("Pirralhos mentais a chamam de pirralha").

Segundo ele, que diz não se "preocupar nem um pouco" com a reação do presidente Jair Bolsonaro aos apelos, chegou a hora de perceber se as falas de líderes internacionais sobre a região amazônica "são da boca para fora ou sérias".

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Uma das várias imagens que rodaram o mundo nesta crise é especificamente de Manaus: aquelas valas comuns abertas em cemitérios da cidade, aqueles tratores abrindo longas fileiras que posteriormente receberiam vítimas do coronavírus especialmente. Qual é a situação do sistema funerário da cidade neste momento?

Arthur Virgílio Neto - Bem, agora está controlada. Nós estamos preparando um projeto de memorial em nome de todas as pessoas ali enterradas. Estamos trabalhando a separação, para cada uma ser identificada.

Mas os hospitais têm cenas que também correram o mundo e é obvio que as pessoas morreram e não tinha como enterrá-las. Porque nós subimos de 20 a 30 enterros por dia para um pico de 140 e não sei quantos, e agora estamos estabilizados em uma média de 120, o que é muito.

A gente sabe que guerra é guerra. Nós temos uma guerra. Eu encaro o corona como uma guerra. Nós tivemos que enterrar as pessoas. Nós não poderíamos simplesmente olhar um para o outro, indecisos, como aconteceu em alguns hospitais, doentes juntos com mortos. Nós não podíamos fazer isso.

Nós tínhamos que enterrar. E a ordem que dei para o secretário de Limpeza Pública era que procurasse dar um máximo de dignidade, mas que enterrasse com presteza, para evitarmos que aquilo virasse algo muito pior.


BBC News Brasil - O senhor falou da média normal de enterros na cidade, que variava entre 20 e 30. Na terça-feira, 111 pessoas foram sepultadas, portanto pelo menos 80 a mais que a média histórica. Destas 111 sepultadas, só 13 tiveram o diagnóstico de covid-19. Dezenas foram enterradas com insuficiência respiratória ou "causa desconhecida". Isso expõe uma possível subnotificação brutal na cidade.

Virgílio Neto - Quando eu vejo insuficiência respiratória grave, eu leio covid. Quando vejo causas não identificadas, eu não rio porque não é hora de rir, mas…

Eu estou no hospital, aí eu morri e ninguém sabe por que eu morri? É complicado. Eu leio covid. Quando eu leio pneumonia nos boletins dos hospitais, eu leio covid. É obvio que há subnotificação aqui e no Brasil.

BBC News Brasil - O senhor gravou alguns vídeos com apelos para líderes mundiais. O que o levou a pedir ajuda externa, uma vez que a gente espera que a ajuda venha de dentro do próprio país. Por que apelar para fora?

Virgílio Neto - Primeiro, porque não estava chegando nenhuma ajuda aqui. Começou agora, depois da conversa com o ministro da Saúde, uma pessoa muito agradável, mas veio uma coisa mínima, ínfima.

É uma região de interesse planetário. Tem obviamente soberania nacional, mas é uma região de interesse planetário. É hora desse interesse planetário se manifestar de maneira concreta, não só fazendo cobrança.

Não sou do tipo que vive de passado, não uso esses argumentos, que são muito parecidos com os do presidente, que acha que devastar não faz mal. Eu sou contra garimpo no Amazonas, contra agronegócio no Amazonas. Faça em outro lugar.

Sou a favor de aproveitar o nosso banco genético, mantê-lo intacto, para trazer prosperidade para o nosso povo. Precisamos, neste campo, também de cooperação nacional e internacional. E se nós somos essa região importante, e se o Amazonas é o cerne dessa região, eu não entendo como que, em uma hora de aflição, na única vez em que o Estado pode alguma coisa, ele não é atendido. Deve ser atendido. Ou o discurso dos líderes mundiais é da boca para fora, é para fazer bonito perante a imprensa, ou esse discurso é sério.

Tudo o que acontece de ruim para o povo do Amazonas se reflete na floresta, se reflete nos rios, se reflete na contenção do aquecimento global.

Eu acabei de falar com um jornal francês, uma das ajudas que eu espero claramente é a do presidente Emmanuel Macron. Porque o discurso dele indica isso. Eu gosto de juntar meu discurso e a minha prática. Se ele tem toda essa solidariedade e preocupação inteligente com uma boa governança na Amazônia, deveria ajudar.

Da Redação
BBC NEWS BRASIL
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